Quarta-feira, 3 de Maio de 2006

Coração de nossa Mãe

Caros amigos,

Acabo de ler uma obra-prima – mesmo se já de uma certa idade! – e não quero deixar passar a ocasião de partilhar convosco algumas dessas páginas tão belas, sobre a Virgem Maria.

Trata-se de obra do R. P. Mariano Pinho – primeiro Director espiritual da Beata Alexandrina – "O Coração Imaculado de Maria à luz de Fátima".

Coração de Nossa Mãe
«Gosto tanto do Coração Imaculado de Maria!
É o Coração de Nossa Mãezinha do Céu!»
Jacinta
O Coração de Maria é o Coração da Mãe de Jesus: eis o Seu maior privilégio; a Sua definição mais com­preensiva; o Seu mais luminoso ponto de vista.
Maravilha sublime do Espírito Santo, para que o Verbo Divino, desde a Encarnação ao Calvário, tivesse junto de Si na Terra, como num sacramento, a realização sensível do inefável amor com que o Pai ab aeterno Lhe diz: Filius meus es Tu: «Tu és meu Filho!»
Saltério incomparável a coroar toda a obra da criação, que desferido com mestria divina, vibra as mais expressi­vas e dulcíssonas harmonias, ao descantar o Pai a Seu Filho aquele eterno cantar de amor: «Este é o meu Filho predilecto em que tenho todas as minhas complacências».[1]
O Pai quis em linguagem e provas sensíveis dizer a Seu Filho feito homem, quanto O amava e para isso, deu-Lhe Mãe com um Coração feito ao Seu jeito divino de amar: deu-lhe o Coração de Maria.
Mas flui imediatamente esta consequência: Coração da Mãe de Jesus?... Logo, necessariamente também Coração de Nossa Mãe.
A maternidade humana de Maria é consequência da Sua maternidade divina. A terra onde foi lançada a semente, que depois foi vide, que bracejou, folhou, frutificou, é a terra-mãe dessa vide, desses ramos, dessas flores, desses frutos. Jesus é a Vide nascida da terra-virgem de Maria. Ego sum vitis[2] ; e nós para darmos os frutos dessa vide havemos de ser-lhe os ramos indissoluvelmente unidos, para dela recebermos a seiva: vos palmites.
Maria, Mãe da Vide, é também Mãe dos ramos de toda a gigantesca vinha que se dilata de Oriente a Oci­dente, do Norte ao Sul e abrange todos os tempos messiânicos, até àconsumação dos séculos, cujos frutos já vão dando vinho novo no Céu.
Maria é Mãe de Cristo integral: Cristo é Jesus com todo o Seu corpo mítico. Maria é a Mãe de toda a grande família cristã. Belamente por isso Santo Albert Magno Lhe chamou nosso coração: Maria est Cor nostrum [3]. O coração da família é a mãe: Maria é a Mãe da família de Cristo, da Igreja católica, a quem a mesma Igreja saúda com o suavíssimo nome de «Mãe de Miseri­córdia, Vida, Doçura e Esperança nossa».
Como afirma Santo António, Maria ao conceber Jesus, «não concebeu um só, mas uma multidão de filhos, isto é, todos os resgatados pelo Senhor. Concebeu-os todos ao mesmo tempo, porque por um só acto e no mesmo instante deu o que é para todos a causa da vida. Mas pelo que se refere áaplicação às almas dos frutos da Paixão, não os gerou ao mesmo tempo; porque esta aplicação que é quem produz na realidade a vida em cada alma, só se rea­liza no decorrer do tempo.[4]
E S. Luís Grignion de Montfort diz em linguagem popular, que uma mãe não dá à luz só a cabeça de seu filho nem os membros sem cabeça: seria uma monstruosidade da natureza. Assim na ordem da graça, cabeça e membros nascem da mesma Mãe.
Eva unida a Adão no Paraíso no seu Pecado gerou-nos para a morte: é a mãe dos mortos. Maria unida a Jesus na Sua maternidade virginal, gerou-nos para a vida: é a Mãe dos vivos. Assim A aclamam em todos os tempos os Padres e Doutores da Igreja, dando em resumo como provas da maternidade humana de Maria, primeiro: o parentesco que temos em Cristo. Ele dignou-se fazer-se nosso Irmão quanto à natureza e quanto à graça, adoptando-nos como irmãos. Logo Sua Mãe é nossa Mãe também. Se­gundo: a cooperação dada por Maria na Redenção, geran­do-nos espiritualmente. Terceiro: o amor solícito com que nos defende contra as ciladas do demónio e procura formar em nós outro Cristo. Quarto, finalmente: a doação que de Sua Mãe nos faz o próprio Cristo na Cruz, quando disse ao representante, S. João: eis ai a tua Mãe!
Assim o afirmou Leão XIlI, quando na encíclica Octobri Mense, escreve, que foi no Calvário que Cristo proclamou Maria, nossa Mãe.
O Eterno Pai, ao restaurar tudo em Cristo, restaurou-nos com vantagem imensa a mãe que perdemos em Eva, dando-nos Maria como Mãe. Assin, ao associar Maria à sua Paternidade natural a respeito de Jesus, para ambos à uma no mais sublime e divino dos acordes Lhe chamarem Filho, quis também associá-La à Sua paternidade espiritual a respeito dos homens; porque Deus é nosso Pai e nós seus filhos: "Vede que amor nos dedica o Pai – diz S. João – para nos podermos chamar filhos de Deus e realmente o sermos" [5] !
E por isso, lá no Céu Pai e Mãe, com toda a verdade nos dizem a cada um dos regenerados em Cristo: Filius meus es tu: tu és meu filho!
Se o amor do Pai celeste foi tão longe, que nos deu o Seu próprio Filho, não podia deixar de com Ele nos dar Maria e em Maria o que Ela possui de melhor, o Seu Cora­ção maternal.
Que admira pois, que Jesus à hora da morte, nos entregue oficialmente Aquela a quem o Pai O confiara a Ele, quando O enviou ao mundo a fazer-se homem: ecce Matar tua: eis aí a tua Mãe? Ensinara-nos em vida mortal a chamar a Seu Pai, nosso Pai: Pater noster; não quis morrer nem partir para o Céu, sem nos ensinar a chamar a Maria, nossa Mãe: ecce Mater tua.
E com que segurança no-la deixa! Sabia a quem nos confiava; tantas vezes Lhe tinha experimentado os cari­nhos de Mãe! Não podia ter melhor aprendizagem Maria, para exercer o mister de nossa Mãe, do que haver exercido esse dever de Mãe de Jesus, durante trinta e três anos. O Divino Espírito Santo formara o Coração de Maria, de modo que para o Verbo Encarnado e para os homens fosse como que o prolongamento do amor do Pai a Seus Filhos: a Jesus e aos homens. Agora, depois de tão longo tirocínio, o Seu Coração de Mãe a quem Jesus nos confia no Calvário, fica a ser o precioso cofre do amor do Pai e do Filho para connosco: ecce Mater tua!
A S. Pedro examinou três vezes Jesus se O amava, para lhe confiar o seu rebanho; porque Jesus não entrega as almas senão a quem for capaz de amar muito: diligis Me plus his: amas-Me mais do que estes? [6]
A Maria não precisa de A interrogar; já Lhe tinha saboreado tantas vezes as mais suaves e heróicas provas do Seu amor sem par. Por isso, sem prelúdios nos entrega, para que seja, não simplesmente nossa pastora — também o é — mas muito mais do que isso: nossa mãe: ecce Mater tua, ecce filius tuus![7]
Aquele mesmo Divino Espírito Santo que nos leva a chamar a Deus, Pai e nos dá como que a sentir que somos filhos de Deus, é também quem nos Comunica o instinto parecido, no dizer de Leão XIII e de Santo Ambrósio, com que até os mais pequeninos na família cristã se prendem de Maria e sabem que Ela é sua Mãe. «Gosto tanto do Coração Imaculado de Maria! — dizia saborosamente a Ja­cinta — E o Coração de nossa Mãezinha do Céu!
E Santa Teresa do Menino Jesus abria assim o seu coração com Nossa Senhora: — «Quereis saber, minha Mamãzinha querida? Eu acho-Me mais feliz do que Vós. Eu tenho-Vos por Mãe e Vós não tendes como eu uma Santíssima Virgem para amar!»[8]
Esta verdade de que em Maria Santíssima há um Coração que é o Coração da Mãe de Jesus e de nossa Mãe, faz-nos apreciar mais ao vivo a nossa solidariedade e fraternidade com Jesus: é nosso Irmão total que não só a meias. O mesmo a que chama Pai, é nosso Pai; a mesma a quem chama Mãe, é nossa Mãe!
E que fecunda nos brilha a esta luz a virgindade de Maria! Ninguém mais do que Ela é Virgem; ninguém mais do que Ela é Mãe.
Não ficaria satisfeita a nossa exigência de amor materno, se no amor de Maria não lobrigássemos mais do que um efeito apenas do instinto maternal que Deus conferiu a toda a donzela bem formada, mesmo àquelas que, ávidas de ideal, dedicam a Jesus para sempre a flor da sua pureza integral.
Não: no Coração de Maria o Seu amor de Mãe para connosco é obra de arte sem igual: da arte do amor de Deus aos homens, obra-prima e primorosíssima do Espírito Santo... Foi mister intervenção divina especialíssima, para criar em coração humano o amor com que Maria San­tíssima nos ama a nós Seus filhos.
Mas digamos tudo: não há no Coração de Maria dois amores: um para Jesus Outro para nós. Com o amor com que ama a Jesus, com esse mesmo nos ama a nós.
De pouco nos valeria o amor de Maria, se ele não fosse o mesmo com que ama a Seu Filho.
«Daqui vem — observa Pio XI; na encíclica Lux Veritatis — quepor uma força irresistível, corremos para. Maria a consagrar-lhe os nossos gozos, se estamos alegres; as nossas tristezas, se estamos angustiados; as nossas espe­ranças se andamos à busca de melhores bens; daqui o refugiarmo-nos nela a implorar o Seu auxílio celeste nas dificuldades da Igreja, quando a fé esmorece, quando se esfria a caridade, quando se corrompem os bons costumes particulares e públicos, quando corre algum perigo o nome católico e a sociedade civil; daqui vem enfim, que nos últimos momentos da vida, quando já não há nenhuma esperança nem auxílio, para Ela levantemos os olhos em lágrimas e as mãos trémulas a pedir-Lhe nos alcance de Seu Filho o perdão dos nossos pecados e a eterna bem­-aventurança».

[1]Mt. III, 17.
[2]Joan. XV, 5.
[3]In Marial — c. 83.
[4]Bibl. Virg. t. II, pág. 517.
[5]I Joan. III, 1.
[6]Joan. XXI,18.
[7]«Oh! quel souvenir Il m’a Iaissé de Lui en me donnant les âmes! — dizia Nossa Senhora a Sor Josefa a 25-3-21, sexta-feira santa.
Vide: Un appel à I’amour, pág. 151 — Toulouse, 1944.
[8]Cit. por S. Navantés em L’Imitation de S.te Thérese de l’Enfant Jésus, pág. 172, ed. 1929, Bruges — Paris.
Mariano Pinho, SJ
A totalidade desta obra poderá brevemente ser consultada no Sítio dedicado ao virtuoso Padre Mariano Pinho:
http://causapadrepinho.home.sapo.pt
Afonso Rocha
Publicado por Alexandrina de Balasar às 17:04

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