Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

CASO SINGULAR DE ABSTINÊNCIA E ANÚRIA

Relatório incompleto do Dr. Henrique Gomes de Araújo sobre a verificação do jejum da Alexandrina no Refúgio de Paralisia Infantil da Foz do Douro, traduzido de Cristo Gesù in Alexandrina, págs. 762-764

 
O nosso amigo e colega Dr. Dias de Azevedo, em Julho de 1941, acompanhou à nossa clínica Alexandrina Maria da Costa, de Balasar, para exames especializados sobre a paralisia de que sofria. Contou-nos a história da doença que explicaremos e que, com exame objectivo, se verificou tratar-se de paraplegia espástica por compressão medular.
Não tivemos modo de determinar a qualidade do agente compressor. Nada mais soubemos da doente até Março de 1943, quando por convite do mesmo doutor se queriam mandar à casa da doente enfermeiras de absoluta confiança para verificar com todo o rigor o jejum absoluto já de há treze meses, isto é, de Abril de 1942.
Como por vários motivos não quisemos consentir, o nosso colega convidou-nos a visitar a doente em Balasar e a fazer um exame minucioso. Foi o que foi feito juntamente com o Prof. Carlos Lima, da nossa Faculdade de Medicina, em 26 de Maio passado. Foi examinada sob um duplo aspecto: neurológico e psicológico. Depois disso, decidiu-se que a Alexandrina fosse isolada numa casa de saúde… por atenção ao Dr. Azevedo e a vários amigos que desde há tempos seguem a doente, resolvemos recebê-la no Refúgio de Paralisia Infantil… onde entrou em 10 de Junho de 1943 e donde saiu em 20 de Julho.
 
O estado actual da doente
 
Exame psicológico: aparece logo perfeita, normal intelectualmente e, afectivamente e volitivamente, mas revela-se portadora de um grupo de ideias fixas que vive e sente intensamente, sem sombra de mistificação ou de impostura: ideias que determinam a sua abstinência… O médico, a família e os seu s íntimos informam que esta abstinência dura já há treze meses.
A sua expressão é viva e perfeita, terna, boa, cativante; atitude sincera, sem pretensões, muito natural. Não manifesta ascetismo, nenhuma melifluidade; a voz não é voz tímida, afectada, cadenciada; não é exaltada, nem fácil a dar conselhos; conversa em tom natural, inteligente e até agudo; responde sem hesitações e convicta, sempre em harmonia com a sua estrutura psíquica e a estrutura sólida de juízos bem construídos e bem delineados em si mesmos e no modo de os apresentar: sempre com ar de bondade espontânea que o clima místico que de há muito a envolve e que não parece ter provocado, não modificaram.
 
O aspecto somático: mostra uma acentuada magreza, os relevos musculares muito apagados, a pele pouco carnosa, a face e as mucosas labiais e oculares coloridas…
 
No Refúgio foi assistida e vigiada sempre por um grupo de senhoras de indiscutível probidade, incapazes da menor venalidade ou cumplicidade, todas práticas de enfermaria mas não profissionais; pessoas livres, sem nenhum interesse pecuniário; submeteram-se por turnos a permanecer continuamente junto da doente; dormiam no seu quarto, tendo sempre no bolso a chave do mesmo.
Nenhuma pessoa estranha tocou alguma vez na doente ou a fez a limpeza higiénica sem a sua presença rigorosa. Muitas vezes este trabalho foi feito pelas próprias senhoras de modo exemplar. Mas, por outro lado, trabalho muito simples porque não havendo nenhumas evacuações, se reduzia a simples abluções de álcool por causa da transpiração, de raros vómitos, alguns com ligeiras manchas de sangue…
No dia 11 de Junho, depois duma noite pouco tranquila, acusando (como ela dizia) várias dores, encontrámo-la rósea, alegre, com um pano refrigerante na fronte e com um saco de água quente sobre o estômago.
Deve-se saber, do modo mais claro, que tanto o líquido do pano como o do saco estava – sem que a Alexandrina o soubesse – com uma concentração de sal inglês ou sulfato de sódio.
(O Dr. Gomes expõe depois em dias páginas o gráfico das temperaturas: pulso, respirações; menciona o peso, a pressão, o exame do sangue que na análise apareceu normal como duma pessoa que se alimenta).
 
Foram inúteis os nossos primeiros esforços e todos os outros, feitos em seguida, para induzir a doente a alimentar-se introduzindo no seu subconsciente conselhos através da persuasão e de um trabalho de reeducação.
Por outro lado não tentámos nunca a alimentação forçada porque a julgávamos inoportuna e contra-indicada.
Assim passaram os dias, um após outro, e a doente conversava, cantava cânticos religiosos, numa conformidade absoluta com a sua decadência física, mas psiquicamente forte e perfeita…
É absolutamente certo que, durante os quarenta dias que passou no refúgio, a Alexandrina não comeu, nem bebeu, nem urinou, nem defecou; e esta circunstância leva-nos a crer que estes fenómenos remontem a tempos anteriores. Não podemos duvidá-lo…
 
Dr. Gomes de Araújo, da Real Academia de Medicina de Madrid, Director do Refúgio de Paralisia Infantil, especialista em doenças nervosas e artríticas
Publicado por Alexandrina de Balasar às 18:55

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