Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

O ESTILO DA BEATA ALEXANDRINA

Como professor de língua e literatura portuguesas, desde há muito que nos interessamos pela estilo da Beata Alexandrina: pela perfeição das suas cartas e das narrativas dos êxtases, pelos seus textos às vezes altamente poéticos, pelas áreas da realidade onde vai buscar as imagens, até pelas dificuldades em se exprimir que às vezes confessa, apesar de nunca fazer correcções. Mas agora descobrimos uma síntese sobre esse estilo, escrita já há mais de vinte anos e que se encontra num dos volumes do Summarium. É ela que a seguir se apresenta (apesar de esta página não ser o lugar mais próprio para isso). Deve ser obra conjunta do P.es Luigi Fiora e Humberto Pasquale.

 
A Serva de Deus frequentou a escola primária durante poucos meses, sem fazer qualquer exame. Depois, já adolescente e com a ajuda da irmã e talvez da amiga Sãozinha, professora da freguesia, aprendeu a ler e a escrever, sempre de modo rudimentar. As suas leituras foram escassíssimas, porque lhe faltava tempo e disposição até para ler livros espirituais, como ela mesma confessa. O ambiente familiar era muito modesto e a sua cultura religiosa foi praticamente só aquela que se pode formar na escola do catecismo e na escuta da pregação popular na igreja.
Dados estes precedentes, não se consegue compreender como ela pôde falar tão profundamente das mais altas verdades da fé cristã, da Trindade e da sua habitação em nós, da obra da redenção e da nossa participação nela através da dor, da nossa identificação com Cristo e da Eucaristia, do sentido do pecado e do amor de Deus, etc., etc.
Os censores não puderam assinalar nenhum erro e nenhuma incerteza doutrinal sobre estes temas delicados e difíceis: só pensando na escola divina de Jesus e do Espírito Santo se pode dar uma explicação ao conteúdo dos Escritos. Reenviamos por isso aos dois Censores Teólogos de ofício para o seu autorizado juízo.
A nós interessa-nos assinalar mais humildes elementos sobre o modo de escrever da Alexandrina. Antes de mais admira a simplicidade, associada admiravelmente à humildade, com que ela escreve ou dita a sua experiência religiosa. As palavras jorram com imediatez da fonte límpida da sua alma; elas desfilam em modo linear no discurso sem alguma complicação que ressinta afectação; não se adverte qualquer recordação de formação cultural precedente. É ela que se confessa com candor, como se sente. Sabe-se que os seus manuscritos não têm nenhuma correcção: e isto é sinal de inteligência lucidíssima, de íntima participação em quanto escreve, de segurança e decisão de carácter: o que ela sente encontra imediatamente a sua expressão autêntica e plena, sem hesitação e sem reflexão. Parece coisa impossível numa analfabeta.
Uma coisa natural nas cartas dirigidas tanto ao P.e Pinho como ao P.e Pasquale é o facto de Alexandrina fazer a sua exposição de consciência e referir as palavras que escutou de Jesus, mesmo em êxtase, mas ao mesmo tempo, e com genuína naturalidade, dar tantas informações de vida quotidiana corrente; sobre a sua saúde e sobre as dos familiares, sobre o correio, sobre as visitas, sobre os exames médicos, etc. Quanto há de espiritualmente alto na Alexandrina é inserido num quadro de realidade viva e diária. E isto e sinal de autenticidade e de credibilidade para tudo o que a Serva de Deus escreve ou dita.
As imagens de que ela se serve para exprimir o seu pensamento revelam uma fantasia vivíssima: parecem inexauríveis na sua riqueza e variedade; são vivazes, delicadas, com clareza de expressão, originais e perfeitamente clarificadoras do pensamento. A gente pergunta como pôde elaborar todo este material no seu quartinho fechado e escuro. Se prescindirmos de quanto lhe podia ser inspirado do Alto, a sua fantasia devia ser mobilíssima a construir com imagens a realidade externa que lhe era negado viver.
Quando o tema se alarga na descrição ampla duma cena, a fantasia da Alexandrina não se perde; sabe assumir um tom altamente poético, trate-se da descrição de um presságio ou duma festiva coreografia ou duma dramática e tempestuosa visão infernal.
O sentimento acompanha sempre com muita intensidade as suas descrições: sabe exprimir o amor em todos os seus cambiantes, dos mais afectuosos aos mais apaixonados, do horror ao mal à exortação eficacíssima para o bem, da dor angustiosa à alegria inebriante. Não conhece o que é esbatido e confuso, mas o sentimento tem sempre um tom seguro e preciso; adverte-se que é sentido com intensidade e expresso com imediatez.
Nos Escritos da Alexandrina há todas as características do estilo místico: repetições contínuas, contrastes fortes de sentimentos e de imagens novas e fora da nossa experiência ordinária, mensagens misteriosas, inapreensível variar entre o divino e humano, acentuação de tons e de cores; mas o conjunto é lógico e sólido, bem construído com uma coerência íntima, dominado pelo único grande tema da sua missão, que é a de confortar Jesus e a salvação às almas.
Deve-se dizer que a leitura prolongada dos Escritos não está isenta duma certa fadiga por uma grande e quase arrepiante insistência sobre o tema da própria dor física e moral; pela descrição repetida da Paixão do Senhor em todos os seus momentos: o que é edificante, mas deixa menos caminho para a reflexão sobre outros muitos aspectos confortantes e exaltantes da vida do Senhor a que estamos habituados; pelo mundo místico que é sempre distante da nossa experiência quotidiana e também da nossa ordinária sensibilidade. Não é fácil entrar no mundo da Alexandrina e achar-se aí inserido.
Não obstante isto, a leitura, exactamente pela humildade e sinceridade que inspiram os Escritos, pelo ideal da heróica doação a Deus que brota na vida da Alexandrina e se comunica a nós, pelo fascínio que vem da espontaneidade, da riqueza e do variar das incessantes descrições é sempre estimulante e enriquecedora. Nós falamos, digo falamos, de Deus e do seu amor, do pecado e da penitência, das realidades religiosas da nossa vida: lendo os Escritos da Alexandrina sentimos que, destas realidades, ela vive.
Publicado por Alexandrina de Balasar às 15:53

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